sexta-feira, 25 de março de 2011

Eterno é o sonho

Passou muito tempo, o ruído evaporou-se e as cores brilham agora com verdadeira intensidade. O que mudou? Talvez a principal mudança seja um renovado estado de alma, possivelmente a real fonte de vida onde aprendi a ir beber. Gosto de mim, gosto muito de mim, cada dia mais e mais. Não é narcisismo, aprendi que se a solidão é um treino para a morte, também será a forma de sentirmos o que somos, sem máscaras, sem ilusões, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. A solidão é o modo que o destino encontra para levar o Homem a si mesmo e quem lá encontrar prazer, já dizia Aristóteles, ou é fera selvagem ou é Deus. Somos um pouco de cada e ao mesmo tempo renegamos sempre essas duas faces. Eu rio-me, agora rio-me bastante, quase nada me assusta. Poderia-se pensar, como eu no inicio, que tudo se perde e nada se ganha, que a descida da montanha se faz aos trambolhões, não meus caros, a memória é essencial neste jogo de meias palavras a que chamamos "viver", porque todos somos um instrumento desafinado desta orquestra, na maioria das vezes a gatinhar quando já queriamos estar a correr, absorvidos por esta anestesia afectiva, por este vazio, contudo a memória não basta como instrumento de aprendizagem, já que é imperioso saber interpretar os sinais do tempo, nós próprios devemos ser uma extensão da memória e porque não, da imaginação. Não se dobrem perante a ditadura que é o tempo, pois o tempo não existe, o que existe é o agora. Nada se apaga, trata-se de outra mentira, até porque quem contempla desapaixonadamente não contempla. Mil e uma agruras não apagam o desejo de sentir a pele aveludada de uma bela mulher, de sentir a brisa do mar no rosto numa manhã de sol, de amar incondicionalmente, de partir em aventuras por esse belo mundo fora, o próprio pensamento é em si o mais complexo prazer que por vezes nos deixa a sorrir sozinhos, sejamos todos imortais, pois todos o somos à nossa maneira. Que importa para onde nos leva essa estrada? Queres segui-la? Então não esperes por ninguém, pois essa é a tua estrada, quem a quiser percorrer contigo dará os passos nesse sentido, vais chorar muitas vezes, mas como poderias sorrir se não soubesses o que é chorar? Se caíres será apenas para aprenderes a levantar-te. Cada um de nós, de algum modo define o que é viver. Eu sonhei com o amanhecer da escuridão, onde as lágrimas dos nossos pais molharam o solo, sonhei com o teu rosto, mais do que julgava ser possível, o resto é poesia, não pode ser definido, mas aprendi, aprendi muito. No fim de contas, aquele rosto que me olha do fundo do espelho, pede mais, merece mais. Não importa o amanhã, mergulha no rio quem gosta de água, eu tenho vontade de mergulhar.

Pedro Luís da Cunha

quinta-feira, 24 de março de 2011