segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Devaneios

Olhos negros que brilham na escuridão como um farol que não abdica da sua majestosa altivez, que jamais desiste de guiar aqueles que se perderam no tempo e assim lhes tenta mostrar o caminho mais seguro até à terra prometida, olhos que timidamente buscam a luz pela frincha de uma janela, com vontade de partir para o desconhecido, de finalmente defrontar qualquer obstáculo que se lhes depare no caminho sinuoso daquelas montanhas. Janela que se abre com a ajuda do vento que sopra veloz como que o querendo arrancar da sua clausura, lá fora as montanhas tortuosas que perduram no tempo e que o cercam com dentes afiados. Empurrado por uma força que ele desconhecia ter, salta daquela janela afundada num vale que só agora viu a luz, partindo em busca do sonho, escalando as montanhas, não se deixando intimidar pelos perigos que espreitam por entre cada pedra, cada árvore, cada fenda.

Pedro Luís da Cunha

Lançar da sorte

Baptizado com o nome perfeito, Gabriel caminha com os olhos postos no horizonte cor de fogo, não sabe se é vida ou morte, é o último dos bravos, talvez Deus o tenha poupado para anunciar algo, tal como na lenda. Os seus pés descalços são testados pela areia quente do deserto, para trás deixa apenas um rasto de pegadas que só o vento varrerá. Guardião do templo profanado pela época, cansado, louco até, ri para as poucas nuvens que consegue avistar, parece estar embriagado pelo sol. Recorda-se de uma lembrança que recebera do irmão, um postal com uma fotografia de um qualquer deserto onde se podia ler: “Ao saíres, ó Deus, à frente do teu povo, ao avançares pelo deserto, tremeu a terra; também os céus gotejaram à presença de Deus; o próprio Sinai se abalou na presença de Deus, o Deus de Israel”. No final do texto vinha a origem do mesmo, um qualquer Salmo que ele esquecera, era-lhe indiferente, nunca fora um religioso, tinha apenas curiosidade, fruto de uma educação cujo núcleo central era o conhecimento e a liberdade um baluarte.

O chão mudou, parece o leito de um rio que já não existe, nem em memórias, os seus pés já não se afundam e as fendas decoram aquele estranho caminho que nem caminho é, os seus olhos pregam-lhe partidas.

Olha uma e outra vez, esfrega os olhos, olha de novo e continua a ver o inimaginável, uma única flor que cresceu naquele solo morto. Ajoelha-se perante aquela flor vermelha, que mesmo sendo tão delicada resistiu a tudo, as lágrimas cobrem-lhe o rosto, salgadas sobre aquele rosto ferido pelo astro-rei. Não lhe toca, acha-se impuro para sentir as suas pétalas nos dedos, despe-se completamente e deixa as roupas junto daquela flor, sente que a sua hora chegou e na sua mente vê uma sucessão de reminiscências.

Caminha vergado sobre as pernas que tremem a cada passo.

– Foste digno. – Repete em voz alta.

De corpo nu cai finalmente, passam talvez um par de horas até que volte a abrir os olhos e perante ele está uma cruz feita com dois paus gastos, parecia ser um túmulo. “Não posso crer!”, pensou ele enquanto esticava o braço para tocar naquela cruz.

Olhou o céu e gritou – Que queres de mim? Fazes troça de um moribundo? Deixa-me morrer!

Ouve uma voz feminina e melodiosa – Ainda não chegou a tua hora.

Sente uma sombra sobre o seu corpo ferido e a custo olha para a mulher que lhe fala, afinal não era Deus a responder, pensou até que Deus fosse uma mulher. Ela é perfeita. Gabriel passa a mão sobre os cabelos ásperos e sujos, depois sobre o rosto barbado e queimado, os lábios esfolados, pousa uma mão na cruz e ergue-se com dificuldade, fica a olhar a mulher uns segundos enquanto esta solta um sorriso, olha por si abaixo e envergonhado cobre o sexo com as mãos. Gabriel fica embasbacado a olhar para aquela mulher, tem um rosto invulgarmente simétrico, de rara beleza, uma pele morena, lábios grossos e uns lindos olhos castanhos onde ele se afunda sem pressa.

- Como te chamas? – Pergunta ele.

- Não tenho nome. Como queres que me chame?

Ouvem-se gritos…

- Onde estou? Onde estou? - Repete aquela voz alterada.

A voz é de Gabriel que está em desespero.

- Você está no hospital, fique calmo, sou médico, o meu nome é José.

- No hospital? Mas… Que aconteceu?

- É normal que esteja confuso, você sofreu um grave acidente de automóvel.

- Acidente? Há quanto tempo estou aqui? Rute! Rute!

- Calma senhor Gabriel, tenha calma. Você está aqui há já três semanas, não se recorda de nada?

- Rute! Rute! – Continuava a gritar Gabriel.

- Rute presumo que seja a sua esposa. Lamento informá-lo mas a sua esposa não sobreviveu ao acidente. Lamento muito a sua perda.

O mundo de Gabriel ruiu naquele momento, as palavras não saíam, chorava como um menino, nem conseguia olhar o médico.

- Gabriel lamento muito pela sua esposa e filho…

- Filho?

- A sua esposa estava grávida, você não sabia?

...


Pedro Luís da Cunha

Poemas

Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.

...
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
...
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
...
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Fernando Pessoa

domingo, 24 de janeiro de 2010

A viagem que nos converte em vencedores

Ontem estava a ver um filme para me entreter um pouco, o último “Rocky”, na verdade estava a revê-lo, porque já o tinha visto antes. Eu sempre fui apaixonado por boxe, herdei isso do meu avô materno, lembro-me de vermos combates na televisão, quando ainda os transmitiam há uns anos atrás, no tempo do Tyson, do Hollyfield e daquele outro que veio depois… Esqueci-me do nome, eu já me lembro. O Tyson fascinava-me, tinha um querer, uma sede de vencer que até comia orelhas se preciso fosse, podia não ser justo ou bonito de ser ver, mas aquele homem veio do nada, teve que batalhar muito. Soube que a sua filha de quatro anos morreu este ano, acho que tinha quatro anos, pobre homem, o sofrimento persegue-o, deve ser horrível perder um filho, quanto mais em tão tenra idade.

Dizia eu que estava a ver o filme e ao olhar para aquele Stallone de meia-idade, já não tinha o mesmo olhar e ao mesmo tempo… Foi estranho, o sujeito sempre foi crucificado, “não sabe falar, tem a boca torta” diziam os críticos do costume. Vi que aquele filme foi uma luta pessoal, como a dizer “estou vivo, ainda tenho força”, entendem? Estou a escrever e a na minha cabeça martela-me a música do filme, tem uma força aquele tema. O raio do filme é emocionante, um sujeito de meia-idade que perdeu o estrelato, morreu-lhe a mulher que tanto amava e sempre o apoiou, o filho anda na vida dele e vive ele próprio um drama pela inveja que tem do pai, o tipo anda sempre sozinho lá no seu restaurante, no bairro de sempre, a casa de sempre, o cunhado ainda mais velho e só que ele e de repente decide que quer tentar uma última vez. Têm uma coragem física estes homens, sobem ao ringue e sabem que vão apanhar com uma força demolidora, mas algo os empurra para lá, admiro-os por isso, são guerreiros, vêm todos do nada, dos bairros mais pobres, admiro essa gente. Para os eruditos do cinema este filme pode não valer um chavo mas emocionou-me ver aquela batalha interior do actor, do personagem, estava bem esgalhado, no final de todos os rounds o gajo estava de pé, pouco lhe importava se tinha ganho ou perdido o combate, ele estava de pé e o povo gritava o seu nome, tinha conseguido, estava em paz com ele mesmo.

Penso muitas vezes que o que importa não é o final mas sim a viagem, muitas vezes não saímos vencedores e ao mesmo tempo sentimo-nos bem na nossa pele, isso porque remamos contra a maré, contra todas as hipóteses chegamos ao fim. Há uma frase no filme que adorei, “A questão não é o quão forte tu bates mas sim o quão forte tu podes ser atingido e seguir em frente. O quanto podes aguentar e continuar a seguir em frente”, isto é de uma verdade incrível, já repararam? O grande homem, o grande guerreiro, é aquele que mesmo levando toda a pancada possível e imaginável da vida levanta-se sempre e continua em frente, sem medo.

Lembrei-me do nome do outro pugilista campeão de pesos pesados, era o Lewis, venceu por ko o Tyson, esse combate foi o fim dele, por acaso recordo-me bem. Foi o último dia da sua grande viagem e a sua maior vitória foi abraçar o adversário no final, algo que nem parecia dele, até porque havia muita rivalidade antes daquele combate, ele perdeu, levantou-se a abraçou o Lewis, finalmente estava em paz.

O fogo empresta asas

Gosto dos sábados mas odeio os domingos.

Aos sábados tinha o meu pai perto de mim e podia ser outra vez criança. Acho que nunca fui criança. Aos domingos sentia-me perdido.

Nem era preciso acordar-me, ainda hoje acordo mais cedo aos sábados e penso...

- Queres café com leite?

O meu avô a falar sozinho com a cadela e as manhãs que já não tenho.

Não abraçava o meu pai, abraçava o meu avô, consigo sentir-lhe o cheiro e o gosto da sopa para o almoço, ainda não pronta mas melhor que pronta porque...

- A tua barba pica avô.

O meu pai usava barba, é ruiva a barba do meu pai, como é a do meu irmão.

Adorava as viagens, o som da voz do meu pai, os carros sempre diferentes. Os olhos do meu pai traziam o aconchego e eu criança por um dia.

- Estou com fome

Sempre com fome de te pedir um abraço mas as palavras entaladas na goela, tinha vergonha. Abraçava o meu avô e beijava-lhe o rosto, depois não que já era homem, eu a passar de pito para galo e as saudades que tenho de te beijar o rosto avô.

A boca do meu pai não dizia o que os olhos pediam.

- É o meu pai! É o meu pai!

Contente a vê-lo chegar, todo eu gritava por dentro, ele sempre bem arranjado, perfumado. Sentia-me diferente, queria aquelas roupas e aquele cheiro também, nunca lhe disse.

Coisas de criança e eu que nunca fui criança. O meu irmão fascinado com os carros, os jipes que avançavam sem medo por entre os penedos da Brenha e o meu pai seguro ao volante. Conduz tão bem o meu pai.

O primeiro abraço tinha eu dezassete ou dezoito anos, que ano terrível esse.

- A escuridão às vezes engole-nos.

A minha mãe chorosa e eu mais morto que vivo, não me lembro, não me lembro. Lembro-me daquele abraço. Ele e eu de lágrima fácil, eu já homem a pedir colo.

- Não te mates! As marcas dos cravos...

Sei lá eu agora que não me quero lembrar das coisas que não me lembro, a cabeça enfiada no lavatório cheio de água até cima e a respiração a falhar. As imagens soltas na cabeça, o teu rosto e o deles, não podia… Não podia…

Aquela voz sempre a conspurcar-me a alma, nem sei se era uma voz ou várias vozes, só queria o teu abraço.

- Vou-me casar pai.

E tu sem fala, os mesmos erros, um e outro sempre a errar, nem sei se é por amor ou egoísmo, somos iguais e tão diferentes mas iguais, demasiado iguais.

- És tal e qual o teu pai.

Diziam-me a minha avó e mãe, ainda hoje dizem.

- A boca, o nariz, os dentes.

O feitio era dantes, agora não sei, somos um em cada via que bifurca perto da enseada, depois é monte agreste, é agreste pai. Não sei quem és, sei às vezes, quando te vem a lágrima e mesmo aí não dizes tudo, tens medo não sei do quê. Eu sempre aqui do teu lado, como o meu irmão que às vezes parece o mais velho, é mais prático que eu o meu irmão, menos aventureiro, eu gostei demais das mulheres.

- Sem fogo não há incenso.

Elas pedem uma e outra vez. As mulheres que passam e fica a memória, ás vezes fica, outras não. Eu mais que tu, tu consegues ficar e eu tenho sempre de partir, a culpa nem sempre foi minha, amei-as demais e depois…

- Não prego arrependimentos.

Gosto demais das mulheres, morenas, louras, pretas e brancas, eu sei lá, gosto do romance, dos olhares, do toque, da sedução e da conquista mas...

- Línguas de fogo.

O vazio que fica assim que paramos de sangrar. Queria um amor maior que perdurasse no tempo, só ficam as marcas dos cravos. Neste mundo eu tentei...

- Não prego arrependimentos. Dei-me por inteiro.

Enredado entre teias que me prendem, como aquela que morreu, coitada, dizia que me amava e partiu lá para o sul para morrer daquela forma. É triste. Eu gostava dela mas não o suficiente.

- Acho que estou grávida

O teste que parecia uma eternidade e na espera eu a pensar no que iria fazer com a minha vida.

- Um filho agora? Estou fodido.

Não havia nada no seu ventre se não uma vontade férrea de me prender mas eu queria-as todas, uma não chegava naquele tempo, porque sem fogo não há incenso. Elas eram uma atrás da outra, sempre a chegar até mim vindas de sei lá onde e a carne não se rompe mas o pior é o resto. É difícil. É difícil.

Depois isolo-me, fico só, preciso disso e ao mesmo tempo… Elas são muito bonitas, gosto do cheiro, da pele.

- Assim que parar de sangrar...

Fiquei cego naquele dia, lembraste? Num caminho de terra, em cima da bicicleta

(o que eu gostava de andar de bicicleta, eu e o meu irmão)

e depois caí nem sei como. É estranho, o mundo ficou todo amarelo (não gosto da cor), só ouvia a tua voz, a voz da minha mãe mas não vos via. Cegava e dava arrepios de desmaio, já foi, já não é, talvez se brilhe mais no escuro.

-Tinha pavio curto e explodia mas voltava sempre para junto do trono de Deus.

Agora não sei quem sou ou talvez seja eu finalmente, encontrei a paz nos tambores que se ouvem lá de África. Ouve os cantares daquelas mulheres embrulhadas num pano, os tambores de novo e depois vem o piano, não sei porquê o piano, não liga, mas ele aparece.

O ritmo que me embala agora é outro, não há passado nem futuro, há um imenso presente e estou em paz comigo, gosto muito de ti pai. Tu ainda não ouves os tambores nem o piano, nem aquelas vozes, falta-te isso, deixa-te embalar pelo calor que vem do deserto onde elas cobrem a beleza com mantos de seda. Consegues ver o deserto? Ele vê-te a ti como eu te vejo.

- Vês com os meus olhos?

Saudades de ser a criança que nunca fui, saudades das histórias de leões que o meu avô me contava à noite. Penso muito nele, uma parte de mim morreu com ele pai. Tu também carregaste o caixão, tive tanto orgulho em ti nesse dia, o meu avô também teria tido.

Às vezes tenho medo pai, serei tão genial como sempre me disseram que sou? Eu sempre soube que era diferente, que tinha algo… Não sei explicar pai. Preciso de ti, continuo o menino desamparado a precisar de colo.

Naquela noite o Inverno exibia-se de forma incrivelmente severa, a tempestade lá fora desvendava o lado sombrio da natureza, vigorosos relâmpagos pincelavam o céu negro numa manifestação de força perturbadora, a chuva era constante e o vento parecia querer mostrar a sua brutal capacidade de inverter a ordem dos objectos. Extinguiam-se as horas para o raiar de um novo dia, contudo a intempérie insistia em permanecer, atormentando a futura mãe, de seu nome Maria, que lutava contra as dores de um parto que se mostrava turbulento. O pequeno teimava em não querer abdicar daquele ventre materno que o amparava com ternura, Maria, pobre coitada, debatia-se contra essa vontade do miúdo que já se anunciava endiabrado.

- Nasceu, é um menino! Nasceu nas asas do fogo.

Pedro Luís da Cunha

Frases soltas

Se nos sonhos te posso ter, então quero dormir para sempre, porque se algum dia acordar, a realidade poderá não me deixar sonhar jamais.

Pedro Luís da Cunha

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sou-te grato Helena

É tão fortificante ouvir o silêncio da Serra. Como é bom o silêncio… Gostava de escrever todos os silêncios…

Os silêncios são todos diferentes. Às vezes fico a contemplar a escuridão da noite pela janela e sorrio ao vento que agita todas aquelas frondosas árvores. A casa onde estou é centenária, cada pedra que a reveste parece ter vida, no fundo nunca abandonaram o seu espaço natural, fazem parte da Serra. A Helena é a dona da casa, herdou-a de uma tia que nunca casou e ali viveu até aos oitenta e dois anos, onde morreu, adormeceu e nunca mais acordou, é uma bela forma de morrer. No outro dia a Helena contava-me que essa tia – Eva, assim era o seu nome – nunca quis abandonar a Serra, dizia ela que jamais poderia viver sem aquele cheiro da terra, sem o cantar dos pássaros pela manhã, eu fiquei a imaginar como seria viver uma vida desta forma e achei a ideia bastante sedutora.

Estou sozinho a maior parte do tempo, sempre a escrever, adormeço com o livro, sonho com ele e acordo a pensar nele. Ao fim-de-semana, a Helena, que está ligada às artes e tem aqui um pequeno atelier num dos quartos, vem visitar-me e passamos o sábado e domingo juntos, ela traz sempre algo especial, um vinho, umas cigarrilhas e conversamos muito nas pausas do livro. Ela costuma ir a Montalegre buscar mantimentos porque eu esqueço-me de tudo, até de comer, é tão querida a Helena.

Acordo com o sol a entrar docemente pela janela do quarto, nunca gostei de acordar com o raiar do sol, feria-me os olhos e agora dá-me tanto prazer. A Helena deixou a casa tão bem arranjada, tão bonita, sem a descaracterizar claro, com aquelas vigas de madeira fabulosas, parecem suportar o tecto, a sala é grande, com muitas janelas e há um espaço na sala – onde escrevo – que é muito curioso, sobe-se uns degraus e fica-se a dois metros do chão da sala, uma espécie de recanto que ali se eleva, com duas janelas onde olho a paisagem, a Helena arranjou-me uma mesa e um computador para eu lá estar, nunca tinha visto nada assim.

Depois de tomar um banho, preparo o meu café que quando faz sol gosto de tomar ao ar livre, é muito frio aqui, mas eu gosto de ficar a ver o vapor do café quente a desaparecer no ar da Serra. Depois faço uma longa caminhada até ao rio, normalmente levo uma mochila e fico nas margens do rio a ler um pouco antes de regressar, por vezes o meu olhar dispersa-se e sou atraído pelas águas, é estranho, parece que me querem puxar para dentro delas. Gosto de abrir os braços e absorver aquela brisa no rosto, mesmo fria sabe tão bem. No outro fim-de-semana fui visitar alguns locais magníficos com a Helena, ela tem um daqueles jipes antigos que tudo sobem, é uma exploradora inveterada, uma sonhadora como eu. Gostei muito da Cascata de Fírvidas, da Lagoa do Marinho, da Ponte sobre o Rio Rabagão, fiquei maravilhado com tudo aquilo, Portugal tem locais tão bonitos. No fim do dia eu preparei o jantar para os dois com algumas coisas que compramos no caminho para casa, enquanto estava ao fogão senti um beijo no rosto, era ela, perguntei-lhe porque me tinha beijado e ela disse-me apenas “obrigado” e foi para o quarto. Não percebi aquele obrigado, eu é que devia agradecer-lhe por me proporcionar este recanto para escrever e toda aquela generosidade que tem tido para comigo.

Ao jantar ela estava envergonhada e eu não toquei no assunto, fiquei a vê-la a comer, é uma mulher muito bonita, morena, com um cabelo lindo, aloirado e comprido, tem uns olhos que parecem parar o tempo, azuis celestes, filha única e com um imenso talento para a escultura.

Ela reparou que eu a estava a olhar mais que o habitual e sorriu. “Que foi Pedro?”, perguntou ela. Eu disse-lhe que ficava tão bonita a comer, tem um jeitinho tão feminino em tudo o que faz e ao mesmo tempo é tão decidida, tão despachada. Ela sorriu de novo e disse que no dia seguinte tinha uma surpresa para mim. Eu como sou muito curioso quis a todo custo saber o que era mas ela não me fez a vontade, rimo-nos muito essa noite, enquanto bebíamos um digestivo, eu sempre a fumar e ela a olhar para mim, sempre a olhar para mim, aqueles olhos são muito sedutores. Com trinta e cinco anos (acho que ela não se importa que eu diga a sua idade) tem um corpo de vinte, curvas voluptuosas que ela teima em esconder com aquelas roupas simples e aquele sorriso… É tão genuíno, tão sincero. Ficamos horas a conversar, na casa não há televisão, ela não gosta e eu também não ligo, só vemos às vezes uns filmes no computador e ouvimos muita música. Há tanto tempo que não a via e ela apareceu no momento certo e deu-me a mão. Gosto muito de ti Helena.

Nessa noite sentimos que não havia mais nada… Apenas nós naquela casa isolada e a Serra lá fora. Nunca vou esquecer aquela noite…

Na manhã seguinte preparei-lhe um pequeno-almoço e levei-lho à cama, até ao acordar ela é bonita, ela toda sorridente disse “és um anjo” e beijou-me, deitei-me ao seu lado na cama enquanto ela queria a todo o custo partilhar o pequeno-almoço comigo, dizia “eu não como isto tudo”, é de uma generosidade tão grande a Helena.

Fomos tomar banho porque eu estava em pulgas para saber qual era a surpresa.

Saí-mos no jipe, pelo caminho ela ia-me falando de algumas histórias da sua infância, nos Castelos de Lindoso e de Castro Laboreiro, na aldeia submersa pela construção da Barragem Vilarinho das Furnas, ia-me falando do Parque Natural do Gerês, “o que de mais belo tem Portugal” dizia ela e logo ali fiquei a tremer de ansiedade, porque sempre soube que é o último reduto dos lobos em Portugal. Ao chegar ao destino, ela apresentou-me o Pedro e a Anabela que estavam à nossa espera, um casal muito simpático. O Pedro brincou pelo facto de termos o mesmo nome e perguntou “preparado?”, mal eu sabia o que me esperava. O passeio iria ser feito a cavalo e eu nunca montei na vida, a Helena só se ria ao ver-me a tentar ficar no cavalo sem cair, o Pedro lá me ajudou durante o resto da manhã e fomos os quatro devagar, o porte do animal metia respeito mas depois de algum tempo ganhei confiança, era uma égua muito mansa, chamava-se Filomena, achei piada ao nome. Paramos num sítio lindíssimo para um piquenique, enquanto eles falavam sobre a sua actividade e me perguntavam coisas sobre mim, eram pessoas com quem dava gosto conversar, muito cultas e inteligentes. A Helena disse-me que passaríamos a noite no hotel rural lá da zona, em Castro Laboreiro. De seguida montamos nos cavalos e passado uma meia hora arrepiei-me com o que ouvi, era um uivo. Descemos dos cavalos e o Pedro pediu-nos silencio, eu estava verdadeiramente ansioso. “É um lobo não é?”, perguntei eu baixinho. A Helena sorriu e segredou-me ao ouvido, “era esta a surpresa”. Fizemos uns metros a pé e debruçamo-nos do alto de uma montanha a olhar o vale, eu nem queria acreditar… “É um casal” dizia o Pedro a olhar com os seus binóculos, ele conhece-os a todos. Tão belos aqueles animais, tão belos aqueles uivos, emocionou-me aquilo, foi o presente mais belo que alguém me deu. Ficamos a olha-los longos minutos e o que vi depois não deu para conter as lágrimas, três crias saíram de uma lura, o seu covil, brincavam com a mãe que as tratava com a maior doçura. Ninguém falava, era um momento para guardar para sempre no meu coração. Abracei a Helena, ela limpou-me as lágrimas e eu disse-lhe “obrigada Helena, guardarei este momento para toda a minha vida”.

Pedro Luís da Cunha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Retalhos do Lobo

Porquê?
O quarto está escuro, não consigo abrir a porta na parede sem porta, não consigo olhar a janela porque lá cabem todas as perguntas que me ferem, ainda ouço a tua voz nas noites vazias, procuro a minha paz nesta zona de ninguém e caminho pelos vales dos sonhos que não quero perder. Esses, ninguém mos pode tirar…
É tudo branco e ao mesmo tempo tão negro, o céu já não me ilumina o rosto nas manhãs soalheiras, já não sinto o mesmo calor, quero ficar vazio e esquecer.
Estás só no bosque, o silêncio envolve-te rapazinho, as árvores fecham-se sobre ti, olhas para todos os lados e não vês saída para o infinito. Que saudades tuas eu tenho meu avô, quando tu estavas sentia que nada de mal me podia acontecer. Ainda vejo o teu rosto à noite, ainda beijo o teu retrato antes de procurar o sono que nunca vem.
O lobo que chega e te sonda a alma, em busca dos teus fragmentos rapazinho. Aqueles olhos tudo sabem. Não quiseste chorar dessa vez, ficaste sozinho com o lobo a rondar-te em círculos infindáveis.
Consegues ver esse rapazinho? Fecha os olhos… Sente o bater do seu coração nas tuas mãos. Consegues vê-lo agora diante do lobo? Grita por ele! Ele não consegue gritar, grita ao menos tu!
Os teus olhos nos olhos do lobo rapazinho, ele hipnotiza-te e leva-te a acreditar que também tu podes lamber as feridas que carregas no peito. Não tens medo, nunca tiveste medo, aquele lobo vive em ti e desde aquele dia que és e existes porque ele é e existe.
Olha para mim, olha com os olhos que olhaste quando tocava a tua pele, quando te dava o meu calor, quanto tudo o que queria era amar-te e nada mais, foi só isso que quis…
Porque não consigo odiar? Queria ter raiva para me sentir humano! Não sei o que sinto, o que trago em mim. Só te quero bem. Que paz interior é essa que não traz o vazio? Quero ficar vazio, já nem consigo chorar, não desde aquele dia.
Abre o teu coração, pensei eu, o mesmo eu que sempre teve medo de o fazer. Tanta derrocada e o tecto caiu-me em cima, é tão pesado que me comprime o peito, não me deixa respirar e o coração bate como nos pássaros. Bate tão depressa o coração dos pássaros, escondido por aquelas penas tão delicadas, pobrezinhos parecem estar sempre entre a vida e a morte e no entanto são mais livres que eu e tu alguma vez seremos.
Eu cuidava dos meus pássaros. Eu quis cuidar de ti.
Ainda me recordo de dar a mão aquele senhor para o ajudar a atravessar a Avenida da Boavista, eu e o meu irmão, só ali senti que tinha outro avô e mais senti ao ver as tuas lágrimas pai, trazia no bolso as palavras que a boca calava por não saber dize-las com o carinho que te quis dar num abraço. Ainda trago comigo essas palavras…
Pai, eu nunca quis ser salvo do lobo porque eu sou o lobo que não vive sem as corridas no infindável bosque, deixem-me ser esse lobo, é só o que quero agora que não te tenho, ainda te tenho a ti meu pai, longe, sempre longe mas à distância de um suspiro que te chama na minha solidão.
A minha avó viu o lobo e abraçou-me, disse-lhe com os olhos que estava tudo bem, o lobo é amigo avó, ela abraçou-me e chorou, sempre o fizemos juntos, agora não, agora as minhas lágrimas secaram.
Porquê?
As feridas estavam abertas, tão abertas que até o ar que respiro fazia doer e tu com os dedos na língua e a língua nos dedos carregaste sem dó nas feridas. Será que nunca vou respirar outro ar?
Mãe, desculpa se ainda não sou, porque só quero ser e sou em ti, tu que és a pureza que faz vibrar os campos de centeio banhados pelo sol mais alto e eu que sou o rapazinho que neles corre mas que não sorri.
Fecha o capítulo, tenho de o fechar e recomeçar, abrir a gaveta onde está a chave que só fecha e nunca abre, será que reabre? Deixem-me só a reinventar o mundo. Estou vivo nos meus sonhos dos quais tu já fizeste parte, agora não sei o que és em mim mulher, um pouco de nada e de tudo, depende da hora e dos sons das melodias.
Eu ainda vou cá estar e tu também, o bosque, o lobo e as recordações que perduram na tela que nunca estará na parede, na parede onde não há porta, na parede onde deixaste as marcas dos teus dedos que tocaram as minhas feridas.
Na vida existem erros e verdades, dizer que te amo pode ter sido o meu maior erro, mas foi a minha maior verdade.


Pedro Luís da Cunha


Conheci esta música através do escritor português José Luis Peixoto e quero partilhá-la com vocês. É grega e dá vontade de ser ouvida repetidamente de tão linda que é. Gostei também da letra que aqui coloco para vocês. Sejam felizes!

Monika - Over the Hill

Why? Tell me why?
You don’t call me anymore
Don’t you want me anymore?

Black, it’s all black
It’s the color of my heart
It’s the color of my eyes

But I’m here
Yes, I’m here
Everybody seems to mean so much
Everybody seems to think I’m fine

Late, it’s too late
I am punishing myself
By admitting it’s too late

Laugh, you may laugh
You can laugh at me for days
You may spit at me if you want

Cause I’m here I’m still here
Everybody seems to mean so much
Everybody seems to think I’m fine

Look at me
There were more to see
There were more to be proud of…

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Bom Escritor

Todos os bons livros assemelham-se no facto de serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente, e que, terminada a leitura de um deles, sentimos que tudo aquilo nos aconteceu mesmo, que agora nos pertencem o bem e o mal, o êxtase, o remorso e a mágoa, as pessoas e os lugares e o tempo que fez. Se conseguires dar essa sensação às pessoas, então és um bom escritor.

Ernest Hemingway, in "Escrito de um Velho Jornalista (Esquire, 1934)"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Frases soltas

Tenho estado a ler "Uma longa viagem com António Lobo Antunes" de João Céu e Silva nos intervalos que por vezes faço e entre tantas coisas fascinantes que este homem diz houve uma frase que ele ouviu de uma senhora com pouca instrução que destacou: "Quem não tem dinheiro não tem alma". Já viram a verdade disto? Principalmente nos tempos que correm...

Corações em saltos altos

Ela diz que caminha altiva, naquela marcha agitada de saltos altos

(quem sabe para se sentir maior que eles)

O perfume que dela emana sobressaí na multidão, o rosto de pele clara e os seus grandes e belos olhos verdes atraem a atenção deles

(ela gosta)

Ela finge não ligar mas a sua cabeça roda em todas as direcções como que à procura de algo que perdeu há muito tempo

(perdeu?)

Luzes e música, mais um trago de um qualquer licor, mais um homem que timidamente se aproxima dela

(má sorte, eles têm medo das mulheres bonitas)

As horas passam e ela finge não estar aborrecida, dá mais uma risada estridente e outra, para logo a seguir olhar para o vazio, como que querendo estar noutro lugar, qualquer um, desde que diferente deste. Finge estar despojada de pudores, acende mais um cigarro

(já foram tantos esta noite)

Chama a amiga para dançar

(para onde foi a confiança dela?)

A amiga vai porque sabe que ela precisa de apoio

(ela não imagina que isso transparece)

Sobre aqueles saltos, vestida para abrilhantar a noite pardacenta daquele lugarejo, vai mexendo o corpo ao som daquele ritmo deslocado até atingir o centro da sala

(ela merece o centro)

A amiga deixa que a luz caía sobre ela, os olhares adensam-se, ela sabe e passa a mão sobre os seus cabelos claros, deixando aqueles pobres ignaros a transpirar só com o vislumbre do seu longo pescoço, cuja pele apetece beijar

(só por esta noite… sempre a mesma fuga para a frente)

Não quer pensar e rodopia até sentir o suor na testa, eles rodeiam o seu corpo longo e sinuoso, ela finge que não vê para tornar o jogo mais interessante

(ela que merecia melhores parceiros para o jogo do tudo ou nada)

É tempo de parar para mais um copo, chama os amigos que a olham da mesa ao canto, mais um grito, uma risada, outro cigarro e de rosto já corado volta à dança

(a amiga já não vai agora, a embriaguez é suficiente para a encorajar a seguir a solo)

De volta ao centro, as horas passam e o ritmo aquece, lá está ela luminosa, embalada pelo calor, pelos copos

(já lhes perdeu a conta)

Eles não a largam, são como cães que não descolam

(pobres tristes almas que buscam o troféu mais alto daquela sala para contar aos amigos)

Um deles aproxima-se mais e olham-se fixamente, já vale tudo agora, só mais uma noite de sexo casual para o esquecer

(merecias melhor querida)

Dançam num frenesim, ele com fome de toque, do perfume dela

(ele que não passa de uma pobre amostra de homem)

Ela com vontade de esquecer quem a magoou, aquele por quem o coração ainda sangra

(mesmo após tanto tempo)

Tocam-se na pista, os amigos dele aprovam, os dela desaprovam

(Ela que nem sabe o nome dele)

Corpos suados que se agitam completamente desarticulados, olhos que se desviam dos dele

(ela prefere nem o olhar mais que o necessário)

Os amigos vão embora, a amiga chama por ela, ela solta mais uma risada e fica sozinha

(que importa quando a vista é turva?)

Todos comentam, uns porque gostam dela, outros porque a desejam, outros ainda porque a invejam ou porque simplesmente a reprovam. Mais um cigarro, ele pergunta-lhe o nome e ela diz-lhe ao ouvido, o pobre rapaz finge ouvir e sorri estupidamente

(já de si ele é estúpido, com a ajuda do álcool imaginem…)

Saem daquele pardieiro

(parece-me o nome indicado para dar ao local, naquele terrinha esquecida)

Entram no carro dele, todo artilhado com peças que ele mostra com orgulho

(quer mostrar que tem um grande carro, rapaz essa merda é só um xaveco repleto de porcarias acopladas)

Com um arranque barulhento a largar o fumo dos pneus que se gastam no asfalto seguem para um qualquer lugar

(ela merecia melhor)

Ele despe-a ansioso de provar o melhor pitéu que o divino alguma vez lhe enviou

(nem ele sabe como mas que importa isso agora?)

Ela já atordoada com tanto copo, evita os beijos dele, quase vomita

(bocas secas de tabaco e bebidas adulteradas sem imaginação)

Ele açambarca-lhe o doce corpo como se não houvesse amanhã

(certamente por mais que ele tente, amanhã ela vai perceber a borrada que fez)

A bela e doce jovem deixa-se absorver naquele sexo sem fantasia, sem carinho, desprovido de sentimentos

(Achas que o esqueces assim?)

Em dois ou três minutos ele acaba-se dentro dela e rapidamente adormece, enquanto ela se vai lavar, sem querer olhar o espelho que está diante dela

(Merecias melhor doce mulher)

Fecha os olhos e por momentos pensa no que fez ainda embriagada, para logo a seguir vomitar todo o excesso daquela noite

(já são tantas as noites dessas)

Acordam na manhã seguinte com a boca seca e a cabeça martelada pela ressaca, ela tenta ser cordial com ele mas nem o quer ver, ele vai tomar banho sozinho

(Enfim percebeu)

Quando ele sai, ela chora como uma menina carente de afecto e de quem a proteja

(Esquece o passado, quem foi já não volta e tu só tens de dar graças por isso)

Lava o corpo com tanta força que a sua suave pele fica dorida e vermelha

(Sente-se profanada)

Saí para um café bem forte que combinou com a amiga de sempre

(Abre o teu coração)

Falam de tudo menos daquela noite, ambas evitam o assunto que a magoa, ela acende um cigarro e mais uma vez fala dele

(O que a faz chorar em segredo e que ela não esquece)

Sempre ele como tema da conversa, a amiga finge que a ouve

(Também já sofreu, quem nunca sofreu por amor?)

Ela recorda cada beijo e toque mas prefere falar da traição dele. A amiga dá-lhe força para falar mais do assunto

(Grave erro)

A jovem de olhos expressivos, agora escondidos pelos óculos de sol, fica calada por longos segundos a contemplar as pessoas que caminham lá fora enquanto acaba mais um cigarro. Chega mais um casal amigo, ninguém fala daquela noite, ambos gostam dela e sabem que ela tem de acordar e esquece-lo

(Também ele nunca te mereceu e muito menos merece cada lágrima tua)

O amigo mais velho puxa o tema que a todos parece assustar, os sentimentos, o amor…

Ela finge que não o ouve desviando o olhar, mas está a pensar nas palavras do amigo mais experiente

(Ela sabe mas finge não saber)

Passou tanto tempo e ela ainda se esconde

(Eu vi-te em menos tempo que uma andorinha demora a levantar voo)

Bela menina que é carente e sabe que o é, mulher que usa a máscara para não sofrer de novo

(Ainda não sabes o que é ser amada de verdade)

Mais uma risada e outro cigarro, porque o tema já enjoa e o dia ainda é longo. Olho-a à distância de um sopro como se estivesse longe e vejo uma mulher radiosa que sabe amar

(Eu já sofri muito mais que tu, sem querer quantificar o sofrimento, sei que isso não se faz)

Tantos rostos mal amados que escondem pessoas carentes e que com a devida luz se destacam dos outros, não me quero meter, é só mais uma vítima como eu e todos que acabam enredados na teia da vida que não é a que nos prometeram

(Não gosto de ver mulheres a sofrer)

Ela nem me conhece

(Nem a ela própria se conhece tão pouco)

Ele vai desaparecer quando ela olhar para o que a rodeia, há castas melhores e castas piores, descobrir as melhores nunca é fácil mas com olhos treinados pelas cicatrizes que não fecham é possível descobri-las.

O tempo joga a favor dela, o céu está à distância de um suspiro e ela sem saber já o sabe.


Pedro Luís da Cunha (10 de Abril de 2009)

Poemas

Esta noite lembrei-me de um poema maravilhoso de David Mourão-Ferreira, "Ladainha dos Póstumos Natais", genialidades que ficam para lá do tempo, mesmo que os Natais deixem de fazer sentido. Esta poema comove-me sempre, é tão bonito...

Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que me hão-de lembrar
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz evoca
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que já não viva ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivos estejam versos deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem Natal terá sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o nada retome a cor do infinito

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Insomnis

Noites que nos invadem em tumultuosas horas insanas, onde os olhos buscam o que nunca encontram, vozes abafadas que entoam baixinho nas paredes, malditas, espelhos desprovidos de alma, doem como ferroadas atestadas de veneno. Aquelas paredes estão carregadas de cicatrizes, manchadas com os dedos sujos de almas aprisionadas no eterno poço das falsas virtudes humanas. Ao longe ouve-se o sino da desafinada igreja, onde a fé se vende e compra ao som da tosse das beatas, seres obscuros e exíguos, desejosas de serem fornicadas, desenganem-se harpias, nem o demo vos quer. As horas arrastam-se nas sombras das entranhas da cidade, ouvem-se passos e risos de moças e moços embriagados, se não fosse a bebida ficariam perdidos nestas ruas estreitas onde a esperança morre ao virar da cada esquina. Os teus olhos estão vazios, os teus dedos trémulos, a boca seca e o sexo…

Os olhos nunca fecham, pede-se o sonho e recebe-se o pesadelo, voltas e mais voltas na cama, o som da televisão que já incomoda, o rádio que se liga e aquela música que nos lembra o que queremos esquecer, que perversão. O corpo pede ritmo, pede o perfume de corpos sinuosos de animais infiéis mas não daquelas cadelas vadias que ainda se acham garotas, seguidas por fileiras sedentas de uns minutos de cópula. A dor chega sempre, é o despertar para o abismo que nos surge debaixo dos pés e onde as lágrimas por vezes resvalam mas não agora, as lágrimas estão esgotadas, absorvidas pela terra fria do buraco que ninguém quer rever. O silêncio…

Depois do silêncio o mesmo som de sempre, o cantar da coruja que nos embala numa viagem esquizofrénica até ao sótão dos nossos pensamentos mais obscuros, onde as defesas nos caiem de novo. Grita! Querias gritar mas não te é permitido, a escravidão é uma puta e tem os teus olhos, a tua goela está seca, medrosa, depressiva.

O sonho vem depois, naqueles lençóis brancos, por vezes estranhamente ásperos, buscas a janela que te mostrará de novo aquele rosto mas ele engrossará essa ferida. Os olhos não se fecham, fuma um cigarro, sabes que te apetece, bebe um copo do mais ardente licor, liberta essa raiva que te encarcera. O fumo…

Trava-o bem no teu peito, agora sopra, é bom não é? Aquela música de novo, não há como escapar do som das memórias, o desejo de duplicar a dor mais profunda enquanto os olhos resvalam para os pulsos, sentes o sangue a pulsar dentro de ti, o coração a bater mais forte e não podes libertar-te do destino.

Luzes que se arrastam nesse fio que te puxa, fio tão estreito que quase se parte, pobre alma que pede colo, já não acredita no paraíso, acredita na dor, acredita no medo, na morte. Olha as águas apinhadas de cadáveres, vítimas de guerras que não quiseram, também tu lá estarás um dia.

As gotas da chuva começam a ouvir-se timidamente, os olhos estão pesados mas teimam em não fechar, como as marcas que tens no coração. Aquela torneira continua a gotejar, parece uma garrafa de soro que alimenta de forma tortuosa com tristeza, devastando corpo e alma, assinalando o tempo que não volta e a vida afastada de todo o colorido.

Sentes o gume de cada facada que te trespassou o peito, sentes cada porção de lâmina que te penetra o âmago do teu ser, procuras fechar os olhos com toda a força mas a dor não passa e a noite cai-te em cima, deita-te por terra, cais-te na armadilha que te rasgou a carne. Lamentos e dúvidas caem como torpedos, entre palavras que a boa educação não permite pronunciar, a raiva instala-se e o amargo sabor da injustiça deixa-te um mau gosto na boca. Devaneios...

Eles irrompem pela tua mente, apelas ao deus, apelas ao diabo, apelas a todas as tuas forças...

As melodias ecoam dentro de ti, lembram outros tempos, outras vidas, outras feridas e os olhos que não fecham. Respira fundo e aguenta mais esta noite, perguntas se o tempo tudo curará. A vida errante não traz tantos dissabores mas também te mata os sonhos, os sonhos que vês desaparecerem por entre os dedos, talvez não seja o teu destino. O telemóvel toca, do outro lado as vozes de quem nunca te esqueceu, hoje a noite é a solo, não queres a companhia de ninguém, só fechar os olhos e dormir mas o caminho para esse fim está a revelar-se dificil. Respira fundo, não sejas tu o teu himalaia, sê antes o himalaia de quem não se encontra, de quem o espelho revela o que querem esconder.

Pedro Luís da Cunha (1 de Novembro de 2009)

Metamorfose em fase final


Preparação, incubação, iluminação e verificação. Em busca do tempo perdido no isolamento perfeito da criatura diante do mundo. Por vezes à noite há um rosto que me olha do fundo do espelho, que me mostra o meu verdadeiro rosto. Para onde me leva esta estrada? Não sei mas quero descobrir o que me espera no final.

Novos textos no blog em breve...