Gosto dos sábados mas odeio os domingos. Aos sábados tinha o meu pai perto de mim e podia ser outra vez criança. Acho que nunca fui criança. Aos domingos sentia-me perdido.
Nem era preciso acordar-me, ainda hoje acordo mais cedo aos sábados e penso...
- Queres café com leite?
O meu avô a falar sozinho com a cadela e as manhãs que já não tenho.
Não abraçava o meu pai, abraçava o meu avô, consigo sentir-lhe o cheiro e o gosto da sopa para o almoço, ainda não pronta mas melhor que pronta porque...
- A tua barba pica avô.
O meu pai usava barba, é ruiva a barba do meu pai, como é a do meu irmão.
Adorava as viagens, o som da voz do meu pai, os carros sempre diferentes. Os olhos do meu pai traziam o aconchego e eu criança por um dia.
- Estou com fome
Sempre com fome de te pedir um abraço mas as palavras entaladas na goela, tinha vergonha. Abraçava o meu avô e beijava-lhe o rosto, depois não que já era homem, eu a passar de pito para galo e as saudades que tenho de te beijar o rosto avô.
A boca do meu pai não dizia o que os olhos pediam.
- É o meu pai! É o meu pai!
Contente a vê-lo chegar, todo eu gritava por dentro, ele sempre bem arranjado, perfumado. Sentia-me diferente, queria aquelas roupas e aquele cheiro também, nunca lhe disse.
Coisas de criança e eu que nunca fui criança. O meu irmão fascinado com os carros, os jipes que avançavam sem medo por entre os penedos da Brenha e o meu pai seguro ao volante. Conduz tão bem o meu pai.
O primeiro abraço tinha eu dezassete ou dezoito anos, que ano terrível esse.
- A escuridão às vezes engole-nos.
A minha mãe chorosa e eu mais morto que vivo, não me lembro, não me lembro. Lembro-me daquele abraço. Ele e eu de lágrima fácil, eu já homem a pedir colo.
- Não te mates! As marcas dos cravos...
Sei lá eu agora que não me quero lembrar das coisas que não me lembro, a cabeça enfiada no lavatório cheio de água até cima e a respiração a falhar. As imagens soltas na cabeça, o teu rosto e o deles, não podia… Não podia…
Aquela voz sempre a conspurcar-me a alma, nem sei se era uma voz ou várias vozes, só queria o teu abraço.
- Vou-me casar pai.
E tu sem fala, os mesmos erros, um e outro sempre a errar, nem sei se é por amor ou egoísmo, somos iguais e tão diferentes mas iguais, demasiado iguais.
- És tal e qual o teu pai.
Diziam-me a minha avó e mãe, ainda hoje dizem.
- A boca, o nariz, os dentes.
O feitio era dantes, agora não sei, somos um em cada via que bifurca perto da enseada, depois é monte agreste, é agreste pai. Não sei quem és, sei às vezes, quando te vem a lágrima e mesmo aí não dizes tudo, tens medo não sei do quê. Eu sempre aqui do teu lado, como o meu irmão que às vezes parece o mais velho, é mais prático que eu o meu irmão, menos aventureiro, eu gostei demais das mulheres.
- Sem fogo não há incenso.
Elas pedem uma e outra vez. As mulheres que passam e fica a memória, ás vezes fica, outras não. Eu mais que tu, tu consegues ficar e eu tenho sempre de partir, a culpa nem sempre foi minha, amei-as demais e depois…
- Não prego arrependimentos.
Gosto demais das mulheres, morenas, louras, pretas e brancas, eu sei lá, gosto do romance, dos olhares, do toque, da sedução e da conquista mas...
- Línguas de fogo.
O vazio que fica assim que paramos de sangrar. Queria um amor maior que perdurasse no tempo, só ficam as marcas dos cravos. Neste mundo eu tentei...
- Não prego arrependimentos. Dei-me por inteiro.
Enredado entre teias que me prendem, como aquela que morreu, coitada, dizia que me amava e partiu lá para o sul para morrer daquela forma. É triste. Eu gostava dela mas não o suficiente.
- Acho que estou grávida
O teste que parecia uma eternidade e na espera eu a pensar no que iria fazer com a minha vida.
- Um filho agora? Estou fodido.
Não havia nada no seu ventre se não uma vontade férrea de me prender mas eu queria-as todas, uma não chegava naquele tempo, porque sem fogo não há incenso. Elas eram uma atrás da outra, sempre a chegar até mim vindas de sei lá onde e a carne não se rompe mas o pior é o resto. É difícil. É difícil.
Depois isolo-me, fico só, preciso disso e ao mesmo tempo… Elas são muito bonitas, gosto do cheiro, da pele.
- Assim que parar de sangrar...
Fiquei cego naquele dia, lembraste? Num caminho de terra, em cima da bicicleta
(o que eu gostava de andar de bicicleta, eu e o meu irmão)
e depois caí nem sei como. É estranho, o mundo ficou todo amarelo (não gosto da cor), só ouvia a tua voz, a voz da minha mãe mas não vos via. Cegava e dava arrepios de desmaio, já foi, já não é, talvez se brilhe mais no escuro.
-Tinha pavio curto e explodia mas voltava sempre para junto do trono de Deus.
Agora não sei quem sou ou talvez seja eu finalmente, encontrei a paz nos tambores que se ouvem lá de África. Ouve os cantares daquelas mulheres embrulhadas num pano, os tambores de novo e depois vem o piano, não sei porquê o piano, não liga, mas ele aparece.
O ritmo que me embala agora é outro, não há passado nem futuro, há um imenso presente e estou em paz comigo, gosto muito de ti pai. Tu ainda não ouves os tambores nem o piano, nem aquelas vozes, falta-te isso, deixa-te embalar pelo calor que vem do deserto onde elas cobrem a beleza com mantos de seda. Consegues ver o deserto? Ele vê-te a ti como eu te vejo.
- Vês com os meus olhos?
Saudades de ser a criança que nunca fui, saudades das histórias de leões que o meu avô me contava à noite. Penso muito nele, uma parte de mim morreu com ele pai. Tu também carregaste o caixão, tive tanto orgulho em ti nesse dia, o meu avô também teria tido.
Às vezes tenho medo pai, serei tão genial como sempre me disseram que sou? Eu sempre soube que era diferente, que tinha algo… Não sei explicar pai. Preciso de ti, continuo o menino desamparado a precisar de colo.
Naquela noite o Inverno exibia-se de forma incrivelmente severa, a tempestade lá fora desvendava o lado sombrio da natureza, vigorosos relâmpagos pincelavam o céu negro numa manifestação de força perturbadora, a chuva era constante e o vento parecia querer mostrar a sua brutal capacidade de inverter a ordem dos objectos. Extinguiam-se as horas para o raiar de um novo dia, contudo a intempérie insistia em permanecer, atormentando a futura mãe, de seu nome Maria, que lutava contra as dores de um parto que se mostrava turbulento. O pequeno teimava em não querer abdicar daquele ventre materno que o amparava com ternura, Maria, pobre coitada, debatia-se contra essa vontade do miúdo que já se anunciava endiabrado.
- Nasceu, é um menino! Nasceu nas asas do fogo.
Pedro Luís da Cunha


2 comentários:
Há quem diga que recordar é viver, mas na verdade passamos bons sabados, era um dia bom porque estava-mos juntos e cortiamos todos os momentos, lembro-me perfeitamente como se fossse hoje. A vida hoje é diferente mas os tempos não mudam o que existe entre nós, o mais importante não são os colos mas sim o sentimos um pelo outro. Um abraço do teu pai.
lindo texto. mt lindo e cativante.
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