Baptizado com o nome perfeito, Gabriel caminha com os olhos postos no horizonte cor de fogo, não sabe se é vida ou morte, é o último dos bravos, talvez Deus o tenha poupado para anunciar algo, tal como na lenda. Os seus pés descalços são testados pela areia quente do deserto, para trás deixa apenas um rasto de pegadas que só o vento varrerá. Guardião do templo profanado pela época, cansado, louco até, ri para as poucas nuvens que consegue avistar, parece estar embriagado pelo sol. Recorda-se de uma lembrança que recebera do irmão, um postal com uma fotografia de um qualquer deserto onde se podia ler: “Ao saíres, ó Deus, à frente do teu povo, ao avançares pelo deserto, tremeu a terra; também os céus gotejaram à presença de Deus; o próprio Sinai se abalou na presença de Deus, o Deus de Israel”. No final do texto vinha a origem do mesmo, um qualquer Salmo que ele esquecera, era-lhe indiferente, nunca fora um religioso, tinha apenas curiosidade, fruto de uma educação cujo núcleo central era o conhecimento e a liberdade um baluarte. O chão mudou, parece o leito de um rio que já não existe, nem em memórias, os seus pés já não se afundam e as fendas decoram aquele estranho caminho que nem caminho é, os seus olhos pregam-lhe partidas.
Olha uma e outra vez, esfrega os olhos, olha de novo e continua a ver o inimaginável, uma única flor que cresceu naquele solo morto. Ajoelha-se perante aquela flor vermelha, que mesmo sendo tão delicada resistiu a tudo, as lágrimas cobrem-lhe o rosto, salgadas sobre aquele rosto ferido pelo astro-rei. Não lhe toca, acha-se impuro para sentir as suas pétalas nos dedos, despe-se completamente e deixa as roupas junto daquela flor, sente que a sua hora chegou e na sua mente vê uma sucessão de reminiscências.
Caminha vergado sobre as pernas que tremem a cada passo.
– Foste digno. – Repete em voz alta.
De corpo nu cai finalmente, passam talvez um par de horas até que volte a abrir os olhos e perante ele está uma cruz feita com dois paus gastos, parecia ser um túmulo. “Não posso crer!”, pensou ele enquanto esticava o braço para tocar naquela cruz.
Olhou o céu e gritou – Que queres de mim? Fazes troça de um moribundo? Deixa-me morrer!
Ouve uma voz feminina e melodiosa – Ainda não chegou a tua hora.
Sente uma sombra sobre o seu corpo ferido e a custo olha para a mulher que lhe fala, afinal não era Deus a responder, pensou até que Deus fosse uma mulher. Ela é perfeita. Gabriel passa a mão sobre os cabelos ásperos e sujos, depois sobre o rosto barbado e queimado, os lábios esfolados, pousa uma mão na cruz e ergue-se com dificuldade, fica a olhar a mulher uns segundos enquanto esta solta um sorriso, olha por si abaixo e envergonhado cobre o sexo com as mãos. Gabriel fica embasbacado a olhar para aquela mulher, tem um rosto invulgarmente simétrico, de rara beleza, uma pele morena, lábios grossos e uns lindos olhos castanhos onde ele se afunda sem pressa.
- Como te chamas? – Pergunta ele.
- Não tenho nome. Como queres que me chame?
Ouvem-se gritos…
- Onde estou? Onde estou? - Repete aquela voz alterada.
A voz é de Gabriel que está em desespero.
- Você está no hospital, fique calmo, sou médico, o meu nome é José.
- No hospital? Mas… Que aconteceu?
- É normal que esteja confuso, você sofreu um grave acidente de automóvel.
- Acidente? Há quanto tempo estou aqui? Rute! Rute!
- Calma senhor Gabriel, tenha calma. Você está aqui há já três semanas, não se recorda de nada?
- Rute! Rute! – Continuava a gritar Gabriel.
- Rute presumo que seja a sua esposa. Lamento informá-lo mas a sua esposa não sobreviveu ao acidente. Lamento muito a sua perda.
O mundo de Gabriel ruiu naquele momento, as palavras não saíam, chorava como um menino, nem conseguia olhar o médico.
- Gabriel lamento muito pela sua esposa e filho…
- Filho?
- A sua esposa estava grávida, você não sabia?
...
Pedro Luís da Cunha


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