Ela diz que caminha altiva, naquela marcha agitada de saltos altos(quem sabe para se sentir maior que eles)
O perfume que dela emana sobressaí na multidão, o rosto de pele clara e os seus grandes e belos olhos verdes atraem a atenção deles
(ela gosta)
Ela finge não ligar mas a sua cabeça roda em todas as direcções como que à procura de algo que perdeu há muito tempo
(perdeu?)
Luzes e música, mais um trago de um qualquer licor, mais um homem que timidamente se aproxima dela
(má sorte, eles têm medo das mulheres bonitas)
As horas passam e ela finge não estar aborrecida, dá mais uma risada estridente e outra, para logo a seguir olhar para o vazio, como que querendo estar noutro lugar, qualquer um, desde que diferente deste. Finge estar despojada de pudores, acende mais um cigarro
(já foram tantos esta noite)
Chama a amiga para dançar
(para onde foi a confiança dela?)
A amiga vai porque sabe que ela precisa de apoio
(ela não imagina que isso transparece)
Sobre aqueles saltos, vestida para abrilhantar a noite pardacenta daquele lugarejo, vai mexendo o corpo ao som daquele ritmo deslocado até atingir o centro da sala
(ela merece o centro)
A amiga deixa que a luz caía sobre ela, os olhares adensam-se, ela sabe e passa a mão sobre os seus cabelos claros, deixando aqueles pobres ignaros a transpirar só com o vislumbre do seu longo pescoço, cuja pele apetece beijar
(só por esta noite… sempre a mesma fuga para a frente)
Não quer pensar e rodopia até sentir o suor na testa, eles rodeiam o seu corpo longo e sinuoso, ela finge que não vê para tornar o jogo mais interessante
(ela que merecia melhores parceiros para o jogo do tudo ou nada)
É tempo de parar para mais um copo, chama os amigos que a olham da mesa ao canto, mais um grito, uma risada, outro cigarro e de rosto já corado volta à dança
(a amiga já não vai agora, a embriaguez é suficiente para a encorajar a seguir a solo)
De volta ao centro, as horas passam e o ritmo aquece, lá está ela luminosa, embalada pelo calor, pelos copos
(já lhes perdeu a conta)
Eles não a largam, são como cães que não descolam
(pobres tristes almas que buscam o troféu mais alto daquela sala para contar aos amigos)
Um deles aproxima-se mais e olham-se fixamente, já vale tudo agora, só mais uma noite de sexo casual para o esquecer
(merecias melhor querida)
Dançam num frenesim, ele com fome de toque, do perfume dela
(ele que não passa de uma pobre amostra de homem)
Ela com vontade de esquecer quem a magoou, aquele por quem o coração ainda sangra
(mesmo após tanto tempo)
Tocam-se na pista, os amigos dele aprovam, os dela desaprovam
(Ela que nem sabe o nome dele)
Corpos suados que se agitam completamente desarticulados, olhos que se desviam dos dele
(ela prefere nem o olhar mais que o necessário)
Os amigos vão embora, a amiga chama por ela, ela solta mais uma risada e fica sozinha
(que importa quando a vista é turva?)
Todos comentam, uns porque gostam dela, outros porque a desejam, outros ainda porque a invejam ou porque simplesmente a reprovam. Mais um cigarro, ele pergunta-lhe o nome e ela diz-lhe ao ouvido, o pobre rapaz finge ouvir e sorri estupidamente
(já de si ele é estúpido, com a ajuda do álcool imaginem…)
Saem daquele pardieiro
(parece-me o nome indicado para dar ao local, naquele terrinha esquecida)
Entram no carro dele, todo artilhado com peças que ele mostra com orgulho
(quer mostrar que tem um grande carro, rapaz essa merda é só um xaveco repleto de porcarias acopladas)
Com um arranque barulhento a largar o fumo dos pneus que se gastam no asfalto seguem para um qualquer lugar
(ela merecia melhor)
Ele despe-a ansioso de provar o melhor pitéu que o divino alguma vez lhe enviou
(nem ele sabe como mas que importa isso agora?)
Ela já atordoada com tanto copo, evita os beijos dele, quase vomita
(bocas secas de tabaco e bebidas adulteradas sem imaginação)
Ele açambarca-lhe o doce corpo como se não houvesse amanhã
(certamente por mais que ele tente, amanhã ela vai perceber a borrada que fez)
A bela e doce jovem deixa-se absorver naquele sexo sem fantasia, sem carinho, desprovido de sentimentos
(Achas que o esqueces assim?)
Em dois ou três minutos ele acaba-se dentro dela e rapidamente adormece, enquanto ela se vai lavar, sem querer olhar o espelho que está diante dela
(Merecias melhor doce mulher)
Fecha os olhos e por momentos pensa no que fez ainda embriagada, para logo a seguir vomitar todo o excesso daquela noite
(já são tantas as noites dessas)
Acordam na manhã seguinte com a boca seca e a cabeça martelada pela ressaca, ela tenta ser cordial com ele mas nem o quer ver, ele vai tomar banho sozinho
(Enfim percebeu)
Quando ele sai, ela chora como uma menina carente de afecto e de quem a proteja
(Esquece o passado, quem foi já não volta e tu só tens de dar graças por isso)
Lava o corpo com tanta força que a sua suave pele fica dorida e vermelha
(Sente-se profanada)
Saí para um café bem forte que combinou com a amiga de sempre
(Abre o teu coração)
Falam de tudo menos daquela noite, ambas evitam o assunto que a magoa, ela acende um cigarro e mais uma vez fala dele
(O que a faz chorar em segredo e que ela não esquece)
Sempre ele como tema da conversa, a amiga finge que a ouve
(Também já sofreu, quem nunca sofreu por amor?)
Ela recorda cada beijo e toque mas prefere falar da traição dele. A amiga dá-lhe força para falar mais do assunto
(Grave erro)
A jovem de olhos expressivos, agora escondidos pelos óculos de sol, fica calada por longos segundos a contemplar as pessoas que caminham lá fora enquanto acaba mais um cigarro. Chega mais um casal amigo, ninguém fala daquela noite, ambos gostam dela e sabem que ela tem de acordar e esquece-lo
(Também ele nunca te mereceu e muito menos merece cada lágrima tua)
O amigo mais velho puxa o tema que a todos parece assustar, os sentimentos, o amor…
Ela finge que não o ouve desviando o olhar, mas está a pensar nas palavras do amigo mais experiente
(Ela sabe mas finge não saber)
Passou tanto tempo e ela ainda se esconde
(Eu vi-te em menos tempo que uma andorinha demora a levantar voo)
Bela menina que é carente e sabe que o é, mulher que usa a máscara para não sofrer de novo
(Ainda não sabes o que é ser amada de verdade)
Mais uma risada e outro cigarro, porque o tema já enjoa e o dia ainda é longo. Olho-a à distância de um sopro como se estivesse longe e vejo uma mulher radiosa que sabe amar
(Eu já sofri muito mais que tu, sem querer quantificar o sofrimento, sei que isso não se faz)
Tantos rostos mal amados que escondem pessoas carentes e que com a devida luz se destacam dos outros, não me quero meter, é só mais uma vítima como eu e todos que acabam enredados na teia da vida que não é a que nos prometeram
(Não gosto de ver mulheres a sofrer)
Ela nem me conhece
(Nem a ela própria se conhece tão pouco)
Ele vai desaparecer quando ela olhar para o que a rodeia, há castas melhores e castas piores, descobrir as melhores nunca é fácil mas com olhos treinados pelas cicatrizes que não fecham é possível descobri-las.
O tempo joga a favor dela, o céu está à distância de um suspiro e ela sem saber já o sabe.
Pedro Luís da Cunha (10 de Abril de 2009)


4 comentários:
Já acompanho o seu blog ha algum tempo e penso que este texto ja esteve publicado anteriormente. Fiquei contente por o Pedro voltar a pegar no seu blog que ja reuniu tantos elogios em comentarios, gosto muito daquilo que escreve. Reparei que muitos dos seus textos falam de mulheres, nalguns nota-se um encantamento que nos leva a ficar apaixonadas, noutros parece que ha alguma revolta, talvez por desamores passados. Gosta de escrever sobre mulheres e para mulheres? Você consegue com as suas palavras entrar por nós dentro e causa uma mistura de sensações, parabéns por isso. Continue assim.
Cara Alzira,
Antes demais, obrigada pelos elogios, ainda bem que gosta do meu blog, ao qual senti uma necessidade de fazer uma limpeza e mantê-lo vazio por um tempo. Confesso que nem sei bem porquê. Quanto à sua questão, eu escrevo para mulheres e para homens, escrevo para mim e para toda a gente. Não conseguiria viver sem escrever. Gosto muito de mulheres, sempre me fascinaram e é natural que fale delas nos textos. Claro que nem sempre os textos tem o mesmo tom, da mesma forma que um músico pode ter hoje uma canção sobre estar apaixonado e amanhã outra sobre uma desilusão amorosa por exemplo. Escrevo sem pensar no que vou escrever, as palavras vão simplesmente saíndo de dentro de mim. Estes textos são bocados disto e daquilo, guardados no armazém que carrego comigo, palavras soltas que se unem e que partilho com vocês.
A Alzira falou-me no seu blog,somos amigas.Vale bem a pena visitar,vou acompanha-lo de futuro.Muitas mulheres e mesmo homens deviam ler este texto. Um aparte...A escrever desta maneira e bonito como é...É uma tentação.
As mulheres...lol
es o eterno gala.mt melhor ao vivo ;)
quero ler o teu livro,n te esqueças do convite.sabes bem k sou a tua fa nº1
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