Noites que nos invadem em tumultuosas horas insanas, onde os olhos buscam o que nunca encontram, vozes abafadas que entoam baixinho nas paredes, malditas, espelhos desprovidos de alma, doem como ferroadas atestadas de veneno. Aquelas paredes estão carregadas de cicatrizes, manchadas com os dedos sujos de almas aprisionadas no eterno poço das falsas virtudes humanas. Ao longe ouve-se o sino da desafinada igreja, onde a fé se vende e compra ao som da tosse das beatas, seres obscuros e exíguos, desejosas de serem fornicadas, desenganem-se harpias, nem o demo vos quer. As horas arrastam-se nas sombras das entranhas da cidade, ouvem-se passos e risos de moças e moços embriagados, se não fosse a bebida ficariam perdidos nestas ruas estreitas onde a esperança morre ao virar da cada esquina. Os teus olhos estão vazios, os teus dedos trémulos, a boca seca e o sexo…
Os olhos nunca fecham, pede-se o sonho e recebe-se o pesadelo, voltas e mais voltas na cama, o som da televisão que já incomoda, o rádio que se liga e aquela música que nos lembra o que queremos esquecer, que perversão. O corpo pede ritmo, pede o perfume de corpos sinuosos de animais infiéis mas não daquelas cadelas vadias que ainda se acham garotas, seguidas por fileiras sedentas de uns minutos de cópula. A dor chega sempre, é o despertar para o abismo que nos surge debaixo dos pés e onde as lágrimas por vezes resvalam mas não agora, as lágrimas estão esgotadas, absorvidas pela terra fria do buraco que ninguém quer rever. O silêncio…
Depois do silêncio o mesmo som de sempre, o cantar da coruja que nos embala numa viagem esquizofrénica até ao sótão dos nossos pensamentos mais obscuros, onde as defesas nos caiem de novo. Grita! Querias gritar mas não te é permitido, a escravidão é uma puta e tem os teus olhos, a tua goela está seca, medrosa, depressiva.
O sonho vem depois, naqueles lençóis brancos, por vezes estranhamente ásperos, buscas a janela que te mostrará de novo aquele rosto mas ele engrossará essa ferida. Os olhos não se fecham, fuma um cigarro, sabes que te apetece, bebe um copo do mais ardente licor, liberta essa raiva que te encarcera. O fumo…
Trava-o bem no teu peito, agora sopra, é bom não é? Aquela música de novo, não há como escapar do som das memórias, o desejo de duplicar a dor mais profunda enquanto os olhos resvalam para os pulsos, sentes o sangue a pulsar dentro de ti, o coração a bater mais forte e não podes libertar-te do destino.
Luzes que se arrastam nesse fio que te puxa, fio tão estreito que quase se parte, pobre alma que pede colo, já não acredita no paraíso, acredita na dor, acredita no medo, na morte. Olha as águas apinhadas de cadáveres, vítimas de guerras que não quiseram, também tu lá estarás um dia.
As gotas da chuva começam a ouvir-se timidamente, os olhos estão pesados mas teimam em não fechar, como as marcas que tens no coração. Aquela torneira continua a gotejar, parece uma garrafa de soro que alimenta de forma tortuosa com tristeza, devastando corpo e alma, assinalando o tempo que não volta e a vida afastada de todo o colorido.
Sentes o gume de cada facada que te trespassou o peito, sentes cada porção de lâmina que te penetra o âmago do teu ser, procuras fechar os olhos com toda a força mas a dor não passa e a noite cai-te em cima, deita-te por terra, cais-te na armadilha que te rasgou a carne. Lamentos e dúvidas caem como torpedos, entre palavras que a boa educação não permite pronunciar, a raiva instala-se e o amargo sabor da injustiça deixa-te um mau gosto na boca. Devaneios...
Eles irrompem pela tua mente, apelas ao deus, apelas ao diabo, apelas a todas as tuas forças...
As melodias ecoam dentro de ti, lembram outros tempos, outras vidas, outras feridas e os olhos que não fecham. Respira fundo e aguenta mais esta noite, perguntas se o tempo tudo curará. A vida errante não traz tantos dissabores mas também te mata os sonhos, os sonhos que vês desaparecerem por entre os dedos, talvez não seja o teu destino. O telemóvel toca, do outro lado as vozes de quem nunca te esqueceu, hoje a noite é a solo, não queres a companhia de ninguém, só fechar os olhos e dormir mas o caminho para esse fim está a revelar-se dificil. Respira fundo, não sejas tu o teu himalaia, sê antes o himalaia de quem não se encontra, de quem o espelho revela o que querem esconder.
Pedro Luís da Cunha (1 de Novembro de 2009)


9 comentários:
BRUTAL!Adorei!Bem vindo de volta.
Este texto é forte mesmo. Parece que levamos uma pancada ao le-lo. Profundo como sempre,tens os olhos do lobo.Adoro os teus textos,agora só falta o livro.Vamos todos depois celebrar em Cabo Verde,fica já combinado.lol
Combinado Tania mas com uma condição, tem que haver cachupa com tudo a que tenho direito :) e muita musica também para toda a gente dançar.
Hi Wolf
I do not know if something is lost in translation but I loved this text, you are brilliant. Thanks for the lyrics for the band, I hope we have both very successful.Like William Blake once said "Always be ready to speak your mind, and a base man will avoid you."
Take care friend.
Du är vacker
Este texto faz sentir mtas coisas. Parece que foi para mim e para o momento que estou a viver,identifiquei-me muito com estas palavras.A raiva é sempre melhor que o desespero,porque nos da força e este texto consegue dar isso.Gostei mt do seu blog.Cumps
Ola pedro.adorei este insomnis,ate o titulo ta bom demais.que achas dessa nova moda de livros sobre vampiros?gostava de saber a tua opiniao.bj
Ola Ana e bem vindo Santiago. Livros sobre vampiros... Queres mesmo que te responda Ana? São modas que vão e vem, já foi moda a religião e os seus segredos e tantas outras coisas, é normal, os vampiros são personagens sempre atraentes. Não me importava de ser um vampiro :) Quanto a esses livros recentes de que falas nunca li nenhum deles, não faço ideia do valor do seu conteúdo mas não creio que os vá ler, nem curiosidade tenho. Tens razão Santiago, a raiva é melhor que o desespero. Fiquem bem.
ce texte est un coup de poing dans l'estomac, admirable!la traduction est raisonnable. vraiment apprécié.
Merci Jean.
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